Intercâmbio: O corpo humano, real e fascinante.

maio 9, 2008 at 3:35 am (Intercâmbio) (, , , , , )

Depois de alguns minutos, um doidão na rua assumiu a missão árdua de chamar táxis para o pessoal do consulado. Eu não entendia, mas tenho certeza de que o bom velhinho estava lá ganhando dinheiro com isso. O esbelto senhor capitalismo é dinâmico o suficiente para que esse tipo de situação ocorra.

Esse senhor também era um entendido no assunto. Mas de alguma maneira a complicada máquina cerebral que compõem as relações e os pequenos impulsos elétricos que se transformam em pensamentos e ações em nossa sociedade já não mais funcionavam de maneira “adequada” para o nosso querido condutor. Ele parecia descontrolado, disso eu lembro. Mas nada que me venha a memória nesse momento frio para que eu possa efetuar o registro virtual já transferido do código binário.

Decidimos dar uma chance até o Parque do Ibirapuera, onde estavam em exibição as peças da exposição “O Corpo Humano – Real e Fascinante”.   Ora, na época havia todo o bafafá sobre tal exposição aqui em São Paulo. O Gugu foi passear no local, a Mundo Estranho explicava o processo, e a mesma exposição é cenário para um dos assassinatos em Casino Royale. Pelo último, um must see.

Eram corpos e órgãos verdadeiros que passaram por um processo de plastificação, deixandos com um estilo flácido, explico-lhe se você não se lembra, caro leitor. Embora o dedo do homem tenha entrado no processo, o grande barato que aqueles eram corpos de verdade, de facto. Não é segredo que a Biologia nunca fora a grande ciência da minha vida, mas existiam algumas razões para passear na exposição: veja, só porque não gosto de definir se a célula era procarionte ou eucarionte, ou se uma célula vai ou não multiplicar os seus genes e todos os babados que ela queira, eu sei admirar as proporções e atributos da perfeição… ou seja, sei observar e tentar identificar a mão do Criador superior nessas obras.

O lado humanitário da coisa também tinha forte influência. Os rumores sobre a origem dos corpos eram os mais variados. O que mais colava, no entanto, era a de que os figurantes materiais da exposição eram prisioneiros executados na China. De fato, de lá vem os corpos e a grande maioria tinha os olhinhos puxados. Os hábitos humanos estavam ali registrados: um pulmão acizentado pela ação da nicotina do cigarro levou à muitos deixarem seus maços em caixas colocadas especialmente para isso. Questiono-me quantos realmente pararam realmente de fumar. Um pulmão aparentemente saudável tinha também suas características cinzentas, graças à poluíção que todos nós estamos sujeitos ao cotidiano. As ligações das veias são impressionantes. Os cerébros, pequenos e intrigantes. Tudo isso leva também à uma reflexão profunda da nossa condição material: sem sadismos, somos pó e ao pó voltaremos. Mas até lá, que máquina perfeita o Cara do andar de cima nos deu!

Acabamos comendo por ali, na exposição na Oca - onde o Pierce Brosnan acabou filmando o comercial do novo Vectra Elite – com as criações da mente de Leonardo da Vinci (um dos grandes estudiosos da anatomia, por ironia). Mas existiam dois fatores que impediram a mim e meu enjooado de ver corpos pai de ir a frente. Havíamos pago bastante caro para ver os olhos esbugalhados daquelas criaturas: cerca de 30 reais, cujo comprovante tenho até hoje. E tínhamos à frente uma enorme fila ostentada pelas crianças do sistema de ensino público que escolhera daquela a data de suas visitas. Nós colhemos nossos lugares de pai e filha que desistiram no final da fila. Mais tarde, porém, eles resolveram adotar novamente seus lugares, o que rendeu alguns olhares de censura dos olhares joviais dos estudantes. Na época, fiquei bastante nervoso. Hoje, não ligo mais. É claro, Captain Obvious.

Acabamos almoçando por lá mesmo e chegou-se à conclusão de que não esperaríamos pelo vôo noturno da TAM para garantir boas taxas. Pegamos então o taxista mais jovem e ativo da rodada, que fizera do seu retrovisor a arma mais poderosa que o homem inventara desde a espada. Dê a ele um retrovisor, e ele derrotará a espada, aposto. Ainda saiu voando por aí quando pedimos por troco, e conseguiu rapidamente, quando nos deixou na Barra Funda, na estação rodoviária, meu ponto final na capital paulista. Viação Cometa foi a escolhida, com algumas exigências para os confortos que as condições físicas do meu pai exigiam. Ele cochilou rápido na viagem de volta que nos levaria ao interior. Eu, no entanto, fui agraciado com um sol escaldante na cara, patrocinado pelo meu banco na primeira fila do double-decker. Who cares. Eu tinha um American Visa, filho. Era só encontrar a minha genitora que nos esperava com alegria no posto para voltarmos para Potirendaba.

Missão Cumprida.

E na Semana que Vem: A visita Papal.

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Intercâmbio: Batendo papo no consulado.

maio 9, 2008 at 3:11 am (Intercâmbio) (, , , )

Hoje faz exatamente um ano que eu fiz isso. Que irônico.

Cumprimentos generalizados à parte, montamos no carro e avançamos.

Os taxistas em São Paulo merecem um prêmio por malabarismo. Como um show a parte para os turistas, eles dirigem mais pelo retrovisor do que pelo vidro a frente propriamente dito, graças a mudança constante de faixas.

“Embaixada Americana, né? Eu sei onde fica”. E começa mais uma história do típico brasileiro que não desiste nunca. Meu taxista em poucos minutos me resumiu como ele teve o visto negado duas vezes, como ele tinha arranjado um casamento com uma americana e como ele perdera sua primeira visita porque sua sobrinha não pagou a prestação do celular que estava em seu nome.

Muitos retrovisores, setas, curvas, avenidas e vinte e cinco reais de tarifa depois, o nosso sujeito parou o carro no consulado. Deu a volta no quarteirão, explicou que a entrada bonita não era para os vistos, que já levara bronca com outros clientes por isso, e como eles deram conta de fechar a rua pela segurança do lugar. Explicou que o estabelecimento vizinho também fazia todo o serviço da papelada para o típico brasileiro que deixa as coisas para a última hora.

Eu ainda tenho o papel do agendamento. A minha entrevista estava marcada para as nove horas, e eu cheguei lá por volta das sete e meia. Ora, estávamos na fila, que já se formava no lugar. Um segurança particular, tipicamente de roupa preta (cabe ao capitão Nascimento chamá-lo ou não de muleque, não a mim). Ele deu logo um berro informando que aqueles que tivessem entrevista até as nove horas podiam se aproximar. Bingo, zero-meia.

O segurança olhou pro meu papel de agendamento. Olhou pra mim. Papel denovo. Zoom. “Quem é o Tiago?”. Eu. Mais um zoom. “Quantos anos você tem?”. Dezoito, na época.

O segurança logo percebeu que meu pai entraria comigo, sem mais nem menos. Ele olhou pro meu pai. Zoom pra dentro. “OOOO fulano! Com quantos anos pode entrar acompanhado?”… a resposta foi vinte um. Obrigado, Deus.

Pausa para suspense. Me devolveu o papel, deixou eu entrar. Dessa vez, como havia explicado, havia entrado em território gringo. Legal. Eu entrei em mais uma fila, emocionante.

Observação. Tempo… alguma conversa preliminar com colegas de espera. Um deles era músico de Minas Gerais, viera de ônibus pro local e chegara a pouco. Ele tinha uma carta de recomendação de um americano para participar, se não me engano tocar música, em algum lugar dos States. O outro já era um senhor que falara dos sistemas do visto, mostrou-nos o seu antigo visto americano, um carimbo velho e simples, e disse que trabalhava numa multinacional americana e que agora precisava visitar.

Nesse momento, entra mas uma figura milenar em toda a embaixada: o sujeito de jaleco. Ostentando os símbolos americanos, ele apareceu-me e verificou a papelada. Quando ia dar seu sorriso de obrigação, ele notou que estava faltando a admissão na embaixada. Isso mesmo, cansado leitor. A admissão que eu não tinha.

O prático senhor do jaleco apenas disse-me para avançar para a outra fila, a do Citibank. Com uma janelinha simples, realizava as transações bancárias da embaixada. Um pai de família de meia idade esperava já pelo mesmo canto. Eu lembro dele. O banco, no entanto, abria às dez horas, se eu me lembro bem.

Espera. Observação. Nesse pouco (pelo menos agora, parece que foi pouco) tempo, eu pude observar o sistema de seguranca rígido da embaixada. Vi os funcionários chegarem. Vi uma família americana entrar contra todas as filas apenas apresentando o passaporte. Lovely.

A fila do lado, que deveria tomar depois de pagar a admissão (essa última vale alguns meses), mostrava o futuro. O segurança alertava: celulares na mão, desligados. Ele olhava para dentro da porta pesada. Olhava para as mãos com celulares, e deixava um punhadinho de pessoas entrarem. A misteriosa porta me deu calafrios e foi aí que tive uma crise de pessimismo diante do meu pai, especialmente por não ter muitos documentos em mãos. Não vou ser específico aqui, mas me questione e lhe darei detalhes em off.

O banco abriu. Cem dólares a admissão. Ah, a conversão não era tão generosa como hoje, no ano passado. Foram duzentos e dez reais.

Hora de descobrir o que havia por trás da porta dos calafrios. O segurança, que de vez em quando abria a porta e falava pra manter o celular em mãos e que o pessoal ia voltar, verificou nossas mãos cheias de equipamentos eletrônicos. Ele abriu as portas da esperança. E por trás das portas que eu temia, tinha… nada. Isso mesmo, nada. Era um detector de metais, que nada indicou, e um lugar para deixarmos nossos eletrônicos, com direito a uma senha. Passado o detector, havia um pátio enorme, com uma área coberta. As flechas mostravam a direção. E fomos parar no canto do barracão.

O lugar já parecia um formigueiro, muita gente. Eu tinha certeza que ia demorar para ser atendido. Mas, no final das coisas, não foi, pode acreditar.

O lugar é cheio de bancos, onde o pessoal vai se movimentando. Então vem mais uma senhorita de jaleco. Ela olha para a minha papelada. Com uma caneta marca textos, me orienta com precisão o que está errado, e o que tenho que marcar. Santa moça do jaleco, com certeza vai pro Céu. Questionei sobre riscar a papelada. Ela falou que tudo bem… e trêmulas notas em caneta BIC surgiram entre as garrafais letras automáticas que tinha preenchido no computador. Nos finais das filas, haviam os guichês aonde o pessoal é atendido. Fila anda, e o primeiro guichê surge. Instruções eletrônicas saiam dos guichês, uma vez que o vidro os separava do pessoal la fora. A moça orientou a deixar tudo pronto, para agilizar, depois que alguns foram mais lerdos no processo. Cheguei, e apresentei como requisitado. Ela verificou tudo e depois disso grampeou uma super senha no meu passaporte, em laranja. Confesso que não gostei de um grampo na capa do bonito brasão da República que ilustra meu passaporte, mas não era nada de mais.

Próximo guichê. Eles chamavam as senhas de maneira variada, então atenção dobrada era requerida. E logo fui falar com a próxima atendente. Esses, como em todos os guichês, eram claramente americanos, o primeiro contato em toda a embaixada. A moça então me explicou em gestos automáticos como colocar minhas digitais. Fiz isso e a moça me liberou rápido. Nesse processo, meu semi-amigo músico estava sendo entrevistado, mas eu estava com uma preocupação muito grande para la pedir como ele fora. Sentamos no banco mais temido do dia: o das entrevistas.

Havia três guichês para entrevistas: havia uma loira com cara muito profissional. Ela parecia brava, mas só aparência. E atendia rapidamente. A do meio era também sorridente, mas parecia exigente. E o terceiro era um homem, que parecia muito atento. A chamada por senhas era alternativa . Estava eu lá, com um frio terrível na barriga, como se fosse a minha conversa com São Pedro para admissão nos portões eternos, quando a senha indicou que eu deveria ser atendido pela loira. Eu gelei, fiquei com medo. Meu pai, que aparentemente não deveria ir comigo, simplesmente ignorou o protocolo e me acompanhou. Um último teste: um casal disse que havia sido chamado antes e foi tratar com ela. Eu esperei, gélido.

Quando eles saíram, a moça me chamou. Ela indicou o telefone e eu o peguei.

Falou em português, bastante rápido: Bom dia, tudo bem? A minha resposta foi automática, coitada. Eu disse que estava bem, mas não pedi como ela estava. Se ela estiver lendo isso agora, por favor, me perdoe pela falta e educação.

Em seguida, tivemos uma conversa rápida. Para onde eu ia, porque e como, basicamente. Eu não menti. Fiz algumas explicações maiores do porque de Charleston, South Carolina, incomum para quem viaja aos EUA.

Estava explicando tudo a ela. Foi então que ela verificou tudo, e depois disse-me:

“O senhor foi aprovado. Por favor, prossiga para o SEDEX”.

Deus, parece que estou sentindo aquilo de novo. Que alívio, que coisa incrível. Um alívio divino, algo celeste, sublime. A sensação de incredulidade veio depois que eu agradeci a moça e coloquei o telefone no gancho. Fiquei com vontade de voltar e pedir pra moça como ela tava, reparando minha falta de cortesia.

Como se não acreditasse, eu olhei pro meu pai. Eu não sabia se era aquilo mesmo que eu ouvi. Às vezes foi minha imaginação. Mas, meu pai confirmou tudo. Por um gesto do destino, ele disse que a única parte da conversa que ele entendeu foi a moça me informando da sua decisão.

Segui então para o SEDEX, logo ali do lado. O atendente me explicou que por se tratar dos documentos, o processo era mais caro, pra garantir entrega. Me deu a papelada pra preencher e o meu pai foi pagar pelo processo. Entre um e outro gringo que fora lá solicitar atendimento, preenchi tudo, entre o pessoal do visto aceito e um único negado que vi. Eu bebi alguma coisa na cantina ali no pátio, depois disso.

Coloquei tudo na pasta e saímos da embaixada, pegando os celulares no caminho. Havia uma família americana decidindo pra onde ia, também na rua. Eu liguei pra minha mãe para dar as boas novas. Esqueci de colocar o código de área e cai em algum lugar por aí. Perdão, se você que atendeu está lendo isso. Meu pai verificou o horário. Era um pouco mais de onze, acho.

Muito diferente do que eu pensava, apesar dos pensamentos iniciais, o consulado soube me tratar muito bem, e algumas acusações por aí chegam a ser injustas ou não fundamentadas com aquilo que vivi. A minha dica para quem vai lá é para justamente manter a calma e tranqüilidade, e o respeito que se apresentar para qualquer um, especialmente no ambiente civilizado. Não minta, e você consegue. Mesmo com essas palavras, vai lhe soar difícil no momento, mas depois você vê que esse foi um nervosismo bastante estratégico, praticamente bobo, lerdo.

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Intercâmbio: A nova série do Fides et Ratio

maio 3, 2008 at 11:36 pm (Intercâmbio) (, , , )

Saudações, meus inúmeros, grandiosos, cultos e inexistentes leitores!

Fico feliz que o blog tenha recebido de fato algumas visitas recentemente, coisa que admito não ter esperado com o advento dele. Parte dessas visitas eu devo ao meu amigo de longa data, Daniel, ou Dynamo, como preferir. Desde as escola, ele sempre se interessou por assuntos diversos, e agora, por meio dos fatos da vida, ele continua com novo fervor o seu blog, o Ignis Dei (e viva o latim!).

Hoje estamos iniciando uma série de posts que, espero, consiga terminar aqui no blog. Ele é também um dos objetivos porque voltei a postar meus pensamentos fracos: o registro dos acontecimentos do intercâmbio, que já está para completar um ano de ocorrido. Tempus fugit, como se diz por aí. Eu vou começar pelo acontecimento mais forte de início de envolvimento meu com o território gringo: a embaixada americana para conseguir o visto de entrada nos Estados Unidos. Esse processo assusta muita gente, e me assustou também, tenha certeza. Mas, antes disso, vou comentar da viagem como um todo.

Marcar um passeio no consulado americano leva  seu tempo. Para aqueles que estão por fora das condições diplomáticas, uma embaixada é considerado território do país que representa. Ou seja, todo ser de células tupiniquins que por seus pés na embaixada pode dizer oficialmente que esteve em território americano. Qualquer coisa que você faça por lá está sujeito aos tramites de leis daquele país. Todo mundo já viu um filme em que o personagem acaba fugindo para a embaixada para pedir proteção. É mais ou menos por aí mesmo. Lá dentro, você não pode ser preso pelo país acusador, já que está no seu território. E se você tentar violar – Jack Bauer, preste atenção agora – a embaixada, você está violando a soberania de um país e provavelmente, depois de desculpas por “mal entendidos” poderá ser acusado ato de guerra. A história é cheia de exemplos recentes disso. Quando o ex-presidente do Equador fugiu para o Brasil, ele se abrigou temporariamente na nossa embaixada por lá. Ai daquele que tentasse alguma coisa. E quando o Chapolim–, err, quer dizer, o Chavez arrumou briga com os amiguinhos na Colômbia, ele expulsou os embaixadores do “inimigo” de seu país. Acredite, quebrar regras diplomáticas pode gerar muita dor de cabeça, meu caro leitor, como diria M em Cassino Royale: quebrar a principal regra das Relações Internacionais.

Mas chega de briefing. O meu consulado americano para o Brasil fica em São Paulo, assim como outras cidades mais. Nós estávamos bem no meio de um início de crise aérea – coisa boba, o pessoal diria – e isso motivou algumas passagens bastante baratas. Sabe o que isso significa, seu zero-meia? Que o Tiago ia para a capital do estado de TAM.

Ahhhh, andar de avião. Minha última experiência fora andar de teco-teco aqui, no former campo de aviação. Uma atividade transformadora, se me permite dizer. Antes dela, eu expressamente proibira meus pais de viajar longe de saídas de emergência em sua viagem para o Chile. Santa inocência.

Depois que eu dei uma volta panorâmica pelos verdejantes prados do território potirendabano, porém, meu conceito de vida aérea mudou. Do nada, o Tiago passou a andar com miniaturas de aviões para todos os lugares. Era mais fácil do que agachar para carrinhos, afinal. Pilotos da força aérea viram seus heróis, e a Esquadrilha da Fumaça, um sonho, como continua sendo. Mas, apesar do vício contínuo, eu so havia andado uma vez de avião até então.

O aeroporto de Rio Preto de manhã pode não parecer um lugar inspirador, mas pode acreditar, continua sendo divertido voar. Uma dor de barriga psicológica marcou meu jejum de voar, talvez não por montar em um avião – coisa que eu queria há muito tempo – mas sim o medo de ter o visto negado. Vocês entenderão logo, prometo.

O friozinho da manhã não tira o sorriso das aeromoças que esperam você com pompa na porta do avião, perto do comandante da aeronave – jovem, na maioria das vezes, bem no estilo “Prenda-me se for Capaz” mesmo. O ticket indica aonde você deve sentar. Eu fui agraciado com uma janela. Ótimo. Meu pai, meu companheiro corajoso de medo de aviões, do meu lado.

O sorriso da aeromoça varre a aeronave, travando poltronas, verificando porta-objetos, certificando-se dos cintos. “Desculpe senhor” aqui, “tudo certo” ali, e a aeronave está pronta para partir. A porta se fecha – para a aflição inicial de uns e uma mistura profunda de sentimentos da minha parte – e logo o super comandante testando o rádio diz: “Tripulação, decolagem autorizada”…. ahhh, novamente, que baita satisfação ouvir isso. Se algo acontecer, eles vão continuar sorrindo pra você. Começa então o cerimonial de emergência explicado pela tripulação, geralmente com pequenos visores que surgem a sua frente e um manual que fica nos bancos: impressionante como eu fui um dos poucos que pegou o papel para dar uma olhada séria nele. Enquanto a aeromoça continua sorrindo bonitinho com a máscara na boca, a aeronave se posiciona. Ora, colocando-se o avião na cabeceira da pista, ela se senta, gentilmente.

Nunca vou esquecer a decolagem. Eu estava olhando para a janela, o barulho insistente da turbina semi-ligada, a luzinha insistente em piscar na ponta da asa e que marcava a pista.

VUUUUUUMMMMM… talvez seja essa a melhor prosopopéia que representa a turbina ligando, seu corpo indo para trás e a sensação de frio de barriga deixando o chão… uma olhadinha pela janela, e a basílica está próxima. Tempo para o sinal da cruz, a proteção constante que me acompanha, assim como uma boa parte do pessoal de confiança espiritual voando. Alguns minutos depois, o sorriso branca de neve aparece novamente. Balinhas, refrigerante, suco, água… tudo isso são oferecidos pelas gentis aeromoças. Fiquei olhando pela escuridão da janela a maior parte do tempo, as tímidas luzes da cidade se apagando para a manhã acolhedora dos primeiros raios de sol. Imaginar de quais cidades se tratavam e um assunto para os experts, não meu. Mas sempre vale uma tentativa, entre uma e outra explicação do meu pai, um pouco mais confiante, sobre o avião. Solicito o fone de ouvido para sintonizar o canal de música clássica. Talvez o único que tenha tido tal interesse no avião. Mas eu não consegui ouvir completamente a primeira composição. Tempus fugit. Cinqüenta minutos passam muito rapidamente dentro de um avião. Quando você pensa que abaixo das nuvens existe apenas o mato restante no estado de São Paulo, o piloto anuncia que já estamos descendo e logo o muro de concreto da cidade aparece diante dos seus olhos como mágica. O aspecto cinzento dos prédios, a proximidade com o solo, as formigas humanas se movendo lá embaixo: como é bom voar.

Pousar um avião é uma arte. Na maioria dos pousos que tive, houve baques, houve barulho, e houve simples toques na pista. Eu não lembro desse vôo especificamente, mas tenha certeza, foi demais. Tudo isso, claro, depois dos sorrisos Colgate da aeromoça ter se certificado que os bons passageiros estavam com seus cintos adequadamente apropriados para o pouso. O comandante e tripulação agradecem o vôo, lembrando que “sabemos que a companhia aérea é uma decisão do cliente”. Que fofinho.

Os mesmos sorrisos acolhedores te esperam lá fora, naquele ar de “volte sempre, camarada”. Acho que meu comandante chamava Arthur. Esse nome veio agora na cabeça.

O aeroporto de Congonhas estava bastante ativo na época. Esperamos por um ônibus, que veio nos buscar na pista e com velocidade nos levou até o terminal percorrendo mais ou menos o tamanho do aeroporto de Rio Preto. Quanta ironia.

Os trabalhadores vestiam suas blusas: eu estava claramente na terra da garoa, podia acreditar que realmente aviões funcionavam. Pode parecer bobo, mas sentir um ocorrido sempre muda o sentido da coisa.

Meu pai e eu saímos do aeroporto cerca de 7:06 da manhã. Seis minutos para cruzar, o avião chegara na hora. Um táxi esperava, como sempre espera. São Paulo não pára.

No próximo post, a entrevista em si. Fiquem de olho, leitores inexistentes!

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