Intercâmbio: Batendo papo no consulado.
Hoje faz exatamente um ano que eu fiz isso. Que irônico.
Cumprimentos generalizados à parte, montamos no carro e avançamos.
Os taxistas em São Paulo merecem um prêmio por malabarismo. Como um show a parte para os turistas, eles dirigem mais pelo retrovisor do que pelo vidro a frente propriamente dito, graças a mudança constante de faixas.
“Embaixada Americana, né? Eu sei onde fica”. E começa mais uma história do típico brasileiro que não desiste nunca. Meu taxista em poucos minutos me resumiu como ele teve o visto negado duas vezes, como ele tinha arranjado um casamento com uma americana e como ele perdera sua primeira visita porque sua sobrinha não pagou a prestação do celular que estava em seu nome.
Muitos retrovisores, setas, curvas, avenidas e vinte e cinco reais de tarifa depois, o nosso sujeito parou o carro no consulado. Deu a volta no quarteirão, explicou que a entrada bonita não era para os vistos, que já levara bronca com outros clientes por isso, e como eles deram conta de fechar a rua pela segurança do lugar. Explicou que o estabelecimento vizinho também fazia todo o serviço da papelada para o típico brasileiro que deixa as coisas para a última hora.
Eu ainda tenho o papel do agendamento. A minha entrevista estava marcada para as nove horas, e eu cheguei lá por volta das sete e meia. Ora, estávamos na fila, que já se formava no lugar. Um segurança particular, tipicamente de roupa preta (cabe ao capitão Nascimento chamá-lo ou não de muleque, não a mim). Ele deu logo um berro informando que aqueles que tivessem entrevista até as nove horas podiam se aproximar. Bingo, zero-meia.
O segurança olhou pro meu papel de agendamento. Olhou pra mim. Papel denovo. Zoom. “Quem é o Tiago?”. Eu. Mais um zoom. “Quantos anos você tem?”. Dezoito, na época.
O segurança logo percebeu que meu pai entraria comigo, sem mais nem menos. Ele olhou pro meu pai. Zoom pra dentro. “OOOO fulano! Com quantos anos pode entrar acompanhado?”… a resposta foi vinte um. Obrigado, Deus.
Pausa para suspense. Me devolveu o papel, deixou eu entrar. Dessa vez, como havia explicado, havia entrado em território gringo. Legal. Eu entrei em mais uma fila, emocionante.
Observação. Tempo… alguma conversa preliminar com colegas de espera. Um deles era músico de Minas Gerais, viera de ônibus pro local e chegara a pouco. Ele tinha uma carta de recomendação de um americano para participar, se não me engano tocar música, em algum lugar dos States. O outro já era um senhor que falara dos sistemas do visto, mostrou-nos o seu antigo visto americano, um carimbo velho e simples, e disse que trabalhava numa multinacional americana e que agora precisava visitar.
Nesse momento, entra mas uma figura milenar em toda a embaixada: o sujeito de jaleco. Ostentando os símbolos americanos, ele apareceu-me e verificou a papelada. Quando ia dar seu sorriso de obrigação, ele notou que estava faltando a admissão na embaixada. Isso mesmo, cansado leitor. A admissão que eu não tinha.
O prático senhor do jaleco apenas disse-me para avançar para a outra fila, a do Citibank. Com uma janelinha simples, realizava as transações bancárias da embaixada. Um pai de família de meia idade esperava já pelo mesmo canto. Eu lembro dele. O banco, no entanto, abria às dez horas, se eu me lembro bem.
Espera. Observação. Nesse pouco (pelo menos agora, parece que foi pouco) tempo, eu pude observar o sistema de seguranca rígido da embaixada. Vi os funcionários chegarem. Vi uma família americana entrar contra todas as filas apenas apresentando o passaporte. Lovely.
A fila do lado, que deveria tomar depois de pagar a admissão (essa última vale alguns meses), mostrava o futuro. O segurança alertava: celulares na mão, desligados. Ele olhava para dentro da porta pesada. Olhava para as mãos com celulares, e deixava um punhadinho de pessoas entrarem. A misteriosa porta me deu calafrios e foi aí que tive uma crise de pessimismo diante do meu pai, especialmente por não ter muitos documentos em mãos. Não vou ser específico aqui, mas me questione e lhe darei detalhes em off.
O banco abriu. Cem dólares a admissão. Ah, a conversão não era tão generosa como hoje, no ano passado. Foram duzentos e dez reais.
Hora de descobrir o que havia por trás da porta dos calafrios. O segurança, que de vez em quando abria a porta e falava pra manter o celular em mãos e que o pessoal ia voltar, verificou nossas mãos cheias de equipamentos eletrônicos. Ele abriu as portas da esperança. E por trás das portas que eu temia, tinha… nada. Isso mesmo, nada. Era um detector de metais, que nada indicou, e um lugar para deixarmos nossos eletrônicos, com direito a uma senha. Passado o detector, havia um pátio enorme, com uma área coberta. As flechas mostravam a direção. E fomos parar no canto do barracão.
O lugar já parecia um formigueiro, muita gente. Eu tinha certeza que ia demorar para ser atendido. Mas, no final das coisas, não foi, pode acreditar.
O lugar é cheio de bancos, onde o pessoal vai se movimentando. Então vem mais uma senhorita de jaleco. Ela olha para a minha papelada. Com uma caneta marca textos, me orienta com precisão o que está errado, e o que tenho que marcar. Santa moça do jaleco, com certeza vai pro Céu. Questionei sobre riscar a papelada. Ela falou que tudo bem… e trêmulas notas em caneta BIC surgiram entre as garrafais letras automáticas que tinha preenchido no computador. Nos finais das filas, haviam os guichês aonde o pessoal é atendido. Fila anda, e o primeiro guichê surge. Instruções eletrônicas saiam dos guichês, uma vez que o vidro os separava do pessoal la fora. A moça orientou a deixar tudo pronto, para agilizar, depois que alguns foram mais lerdos no processo. Cheguei, e apresentei como requisitado. Ela verificou tudo e depois disso grampeou uma super senha no meu passaporte, em laranja. Confesso que não gostei de um grampo na capa do bonito brasão da República que ilustra meu passaporte, mas não era nada de mais.
Próximo guichê. Eles chamavam as senhas de maneira variada, então atenção dobrada era requerida. E logo fui falar com a próxima atendente. Esses, como em todos os guichês, eram claramente americanos, o primeiro contato em toda a embaixada. A moça então me explicou em gestos automáticos como colocar minhas digitais. Fiz isso e a moça me liberou rápido. Nesse processo, meu semi-amigo músico estava sendo entrevistado, mas eu estava com uma preocupação muito grande para la pedir como ele fora. Sentamos no banco mais temido do dia: o das entrevistas.
Havia três guichês para entrevistas: havia uma loira com cara muito profissional. Ela parecia brava, mas só aparência. E atendia rapidamente. A do meio era também sorridente, mas parecia exigente. E o terceiro era um homem, que parecia muito atento. A chamada por senhas era alternativa . Estava eu lá, com um frio terrível na barriga, como se fosse a minha conversa com São Pedro para admissão nos portões eternos, quando a senha indicou que eu deveria ser atendido pela loira. Eu gelei, fiquei com medo. Meu pai, que aparentemente não deveria ir comigo, simplesmente ignorou o protocolo e me acompanhou. Um último teste: um casal disse que havia sido chamado antes e foi tratar com ela. Eu esperei, gélido.
Quando eles saíram, a moça me chamou. Ela indicou o telefone e eu o peguei.
Falou em português, bastante rápido: Bom dia, tudo bem? A minha resposta foi automática, coitada. Eu disse que estava bem, mas não pedi como ela estava. Se ela estiver lendo isso agora, por favor, me perdoe pela falta e educação.
Em seguida, tivemos uma conversa rápida. Para onde eu ia, porque e como, basicamente. Eu não menti. Fiz algumas explicações maiores do porque de Charleston, South Carolina, incomum para quem viaja aos EUA.
Estava explicando tudo a ela. Foi então que ela verificou tudo, e depois disse-me:
“O senhor foi aprovado. Por favor, prossiga para o SEDEX”.
Deus, parece que estou sentindo aquilo de novo. Que alívio, que coisa incrível. Um alívio divino, algo celeste, sublime. A sensação de incredulidade veio depois que eu agradeci a moça e coloquei o telefone no gancho. Fiquei com vontade de voltar e pedir pra moça como ela tava, reparando minha falta de cortesia.
Como se não acreditasse, eu olhei pro meu pai. Eu não sabia se era aquilo mesmo que eu ouvi. Às vezes foi minha imaginação. Mas, meu pai confirmou tudo. Por um gesto do destino, ele disse que a única parte da conversa que ele entendeu foi a moça me informando da sua decisão.
Segui então para o SEDEX, logo ali do lado. O atendente me explicou que por se tratar dos documentos, o processo era mais caro, pra garantir entrega. Me deu a papelada pra preencher e o meu pai foi pagar pelo processo. Entre um e outro gringo que fora lá solicitar atendimento, preenchi tudo, entre o pessoal do visto aceito e um único negado que vi. Eu bebi alguma coisa na cantina ali no pátio, depois disso.
Coloquei tudo na pasta e saímos da embaixada, pegando os celulares no caminho. Havia uma família americana decidindo pra onde ia, também na rua. Eu liguei pra minha mãe para dar as boas novas. Esqueci de colocar o código de área e cai em algum lugar por aí. Perdão, se você que atendeu está lendo isso. Meu pai verificou o horário. Era um pouco mais de onze, acho.
Muito diferente do que eu pensava, apesar dos pensamentos iniciais, o consulado soube me tratar muito bem, e algumas acusações por aí chegam a ser injustas ou não fundamentadas com aquilo que vivi. A minha dica para quem vai lá é para justamente manter a calma e tranqüilidade, e o respeito que se apresentar para qualquer um, especialmente no ambiente civilizado. Não minta, e você consegue. Mesmo com essas palavras, vai lhe soar difícil no momento, mas depois você vê que esse foi um nervosismo bastante estratégico, praticamente bobo, lerdo.